Lampião apagado
Betume sobre papel de aquarela
15 x 23 cm
Natal 2007
À luz da nova escrivaninha que eu montei, liberando quilos de lixo do meu ex-quarto, que me trouxe tanta bronquite e gosto de infecção logo na primeira noite mal dormida, motivei-me por não sei quais veredas do pensamento e produção artística. Cortando o passado com uma maneira quase que forçada por vontade de me libertar finalmente de coisas que fizeram sentido, pensar daqui pra frente (meu irmão diz que esta casa é apenas museu para ele), lugar onde as memórias ficam cristalizadas em uma nostalgia sem sentido atual, virtualidade de existência perdida entre coleções de selos e moedas, caixas de colecionáveis, chaveiros, livros empoeirados, as Memórias Póstumas de Brás Cubas que nunca mais vou reler (já está, inclusive, na caixa de doação, na esperança de que mude algo na vida de algum garoto inteligente do orfanato). As lembranças são tão vivas que despertam mesmo dias de asma, o armário do meu tio (ver texto no tópico Sentido | Não sentido) que misteriosamente era o outro único membro da família com bronquite, um filme do Tarkovski...uma fotografia em preto de branco de um cachorro vira-latas que morreu há mais de vinte anos atrás...
Os trabalhos da faculdade, guardados em uma caixa de papelão, foram selecionados com algum critério. Entre os desenhos, gravuras, pinturas, quase tudo espontâneo demais foi pro lixo: estudos, desenhos rápidos de modelos nus, trechos de textos deslocados de um todo, lixo. Aquilo não era nada mais nada menos do que outra coleção, com toda nostalgia que todas carregam, agarramento de algo muito pessoal. Um papel com desenhos, anotações quaisquer com um trecho metafísico-poético:
será que quando as mariposas se envolvem na luz do poste da rua
sentem-se mais próximas de Deus?
Foi pro lixo. Torno-me público.
A bronquite continuou por mais alguns dias enquanto o quarto era limpo. Desejei que meu pulmão estivesse vazio como aquele ambiente, com uma nova luz, forte, iluminando uma mesa, pela primeira vez em anos, vazia.
Nas noites solitárias, os desenhos eram iluminados agora por uma luz forte, clara, limpa, ajudando a confecção de um traço preciso, direto. Idéias claras. Questões me transbordavam em uma certeza de que viriam e iriam, sem compromentimento em anotá-las. O consolo foi que passar por elas já fazia alguma diferença. Nada embasado: porque raios continuo com tudo isso?; o encantamento de um gravurista é até óbvio demais; o encantamento com a luz; metafísica; direções do meu trabalho; ética.
Afinal, a dose de Red Label na madrugada me fez respirar um pouco melhor, pelo descolamento da pressão de existir. O gelo me relaxou e eu pude desencanar do peso que é viver. Sei que é triste, porém verdadeiro.
Finalmente a luz me despertou para um momento metafísico. Eu que sempre ataquei-a tão fortemente, voltei a ela. Percebi que há muita beleza em filosofar sobre o impossível, que é divertido e que ela cheira a betume. Afinal, ela foi morta na academia como método e Kant deu o recado final. Mas porque não haver uma retomada, em outros moldes, em outros lugares, com outras finalidades e vontades (como a A Artisticidade do Ser, do Sr. Coutinho) . Por tanto tempo eu comparei a poética em si como uma espécie de metafísica, e agora tudo voltava de uma só vez, em uma imagem de um túnel de azuleijo, denso, grosso, úmido, com samambaias e raízes penduradas, e finalmente, a luz ao final, cegando tudo. Uma implosão silenciosa de vontade em preencher esse vazio científico que eu me encontrava, no fascínio e solidão darwinista deste ser em um quarto, vendo cenas que sucediam-se rapidamente (como acontece nos notíciários) de massas de pessoas em shows adjacentes a guerrijas, grupos separatistas e socialites. Projetadas do tubo catódico para meu tubo óptico houve a projeção maior do que será disso tudo, das estruturas altamente eficientes e ramificadas de grandes empresas e sociedades, e que as pessoasm precisam viver; que são pressionadas e voltam a pressionar a estrutura-mãe, a grande ordem que se consolida artificialmente e que cobre em ondas de história o que está fadado ao esquecimento: uma noite solitária de Natal. Não ou por acaso encontrei no meio do caos um programa sobre Mantras que me fez repensar toda essa minha miséria e que me trouxe certa paz.
A luz que ilumina o traço preciso que eu retirava de uma vontade, de uma idéia, um lampião cheio de seres mágicos, que começaram a se tornar fantasmáticos e acabaram por sumir. Fisicamente, a luz nos permite ver o mundo, mas em excesso ela também cega. Foi aí que eu encontrei meu erro: ter clareza demais. Entreguei-me para o lugar onde não há luz. A medida de um romantismo descabido em uma vontade ilumista fez surgir um lampião apagado, síntese em querer atingir uma verdade maior que simplesmente uma pintura retiniana, que acabou por resultar em uma espécie de incapacidade técnica. A imagem contém asma e uma vontade, debaixo dessa luz precisa de ateliê, de escapar daqui, de construir, de ser melhor, de saber do que eu não preciso, de perceber a limitação deste corpo que fui encarnado, este corpo com bronquite que quer atingir Deus. Não, ela não está a venda.
Nenhum comentário:
Postar um comentário