terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Atlântico


Antes que 2013 chegue, abandono aqui meu último trabalho com composição musical. É deste ano, terminado já há alguns meses e faço-o agora porque talvez demore demais para fazê-lo. Você pode ouvir o trabalho inteiro (e só faz sentido pensá-lo na íntegra) em um dos seguintes links:







Atlantic | 2012 | Thiago Coser


Pontos, limites e singularidades são sempre difíceis de serem abstraídos. Novamente retornamos ao problema da gênesis, ao assombro do mundo; mas esta sequência aqui apresentada estava datada em algum tempo compreensível: faço-a aos 30 anos. Primos mais velhos desta linhagem de autores talvez se identificassem com esta minha tarefa de começar estas linhas atacando categorias de gêneros; espécie de justificativa para o ato de escrever-se para si algo que tente ajudar a interpretação do retrato, tentar adicionar mais um espelho ao jogo  de espelhos; complementar esteticamente o poema; sair. O resultado dos 18 recortes mistura a idéia do poema sinfônico; pega com algum receio resultados semânticos de diversas soluções disponíveis neste estado histórico amniótico; das epicidades a honestas bazófias trago suas glórias e deselogios, me satisfazendo e decepcionando ao mesmo tempo. Há uma travessia nesse lugar de binaridades e paisagens que talvez por sorte (e por conformidade) acabam por se diluir, aceitamos enfim a criação desses estados dos quais estamos sujeitos a despencar. Por fim, espero que a obra aqui abandonada caiba bem a terceiros; que vocês possam apreciar e retirar algo de bom disso aqui, delegando a função de uso radiológico da obra ao autor: registro de uma passagem para não cair na desgraça de não lembrar-me da desgraça.

Outro dia li uma entrevista com uma escritora que dizia que ela nunca poderia escrever um romance porque não lhe cabia a tarefa de colocar uma frase do tipo “ela então se sentou e tomou uma xícara de café”, necessária numa obra do gênero.  Porque a música que tenha um roteiro mínimo (assim como o romance) precisa encher volume, e assim algumas destas faixas acabam por demais abruptas. Mas por certo que houve de tudo: libertinagem, preguiça, a inabilidade técnica, a vida maior chamando. Estou nesse projeto por volta de 3 anos, conscientemente (programaticamente) por volta de poucos meses. Estive compondo pequenos trechos de música nos últimos tempos, nos mais diversos lugares; testando cromacidades e pensando em técnicas composicionais; tecnologias e interfaces diversas, gambiarras, do ócio seus efeitosFX e alegrias. Escrevendo sonatinhas pianíssimas no violão (posteriormente digitalizadas para harpa) e minúsculas partitas de alguma qualquer coisa que veio a se chamar ATLÂNTICO, unidas por legatos, baixas freqûencias, frases instáveis, espelhos e desacelerações. Ao longo, forma-se esta estrutura com seus valores, e esta enorme dificuldade em emendar seus trechos esparsos; corta-se, faz-se malabarismos. Firma-se uma imagem de navio, um quadro de Turner, um destroço naufragando, nuvens coloridas e névoa fria. Pois então ondinas e salamandras só viriam em uma estratégia para abrir a imagem ao público. E também a mim mesmo, não quis e não pude criar um cristal transparente sem vida. Talvez, pensando ontem em mudar o nome do terceiro recorte para para A ESCAMA DA SEREIA, viria a ser uma tentativa de capturar e reviver algum objeto, observando seus detalhes naturais daqui na mesa do escritório. Essa sedução intelectual seria o cantar do animal, refrescou e desaqueceu rápido. A faixa continua com seu nome, sua valsa torta, poderia ser melhor composta, mas enfim: a passagem da alegria, para a busca, em alto mar, de uma morte evidente.

faixas


1.  I let the green flow inside my veins
2. Dollar docks
3. Red lady´s cabin
4. High seas
5. The sun God
6. Dark red birds
7. Wild horses and fishes
8. Tristes tropiques
9. Entering cold waters
10. The sea fog
11. Under the ice
12. Plataform
13. 2 islands
14. Dark night of the soul
15. Triangles
16. Ship cemetery
17. S.O.S interstellar radio
18. Nada ∉ nada




2 comentários:

Unknown disse...

I think Wild Horses and Fishes has got a great future ahead

Unknown disse...

The Titanic song is great